O VERDADEIRO, DESENCANTO EU SOU! Nº 02 – O NASCIMENTO DO MESTRE

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(JORGE ELIAS, Jornalista, autor do Livro “O Cavaleiro da Concórdia”)

 

 

Filho de músicos, Manoel fora recebido, gerado e crescido ao som das valsas, das polcas, das mazurcas e modinhas.

Nascera no dia 30 de dezembro de 1903, na Rua Barão do Iguatemi, na Cidade Nova, nas proximidades da Rua do Matoso e da Praça da Bandeira.

Noite de verão, céu aberto e estrelado.

Durante o parto, sua mãe, a professora de piano Rosa Santos, fôra assistida por uma vizinha, dona Maria Amélia, a negra Amélia Baiana, filha de escrava, beneficiada pela Lei do Ventre Livre, cuja preocupação, agora, era ajudar aos outros a nascer.

Logo que sentiu as primeiras dores, dona Rosa mandou chamá-la. Predisposta à caridade, sorriso largo, Amélia Baiana não demorou, tratando de atendê-la.

Além da arte de forno e fogão, aquela mulher, como poucas pessoas, dominava os segredos da vida.

Sua presença acalmou dona Rosa.

Mangas de camisa, gravata borboleta, o maestro Manoel, o pai, procurava ajudá-la, embora inquieto e nervoso.

– Traga um pano limpo. Pegue água e coloque pra fervê, vamo precisá – pedia Amélia.

O menino Manoel não demorou a nascer, o parto fôra normal. Ao ampará-lo, Amélia Baiana sorriu de felicidade. Beiços largos, testa suada, mão negra segurando o menino pelas pernas, ela berrou, num misto de contentamento e esperança:

É homê, é homê, Rosa… vai lutá pelus homês. Ele traz um canto de amô, de paz, de concórdia e de liberdade…

Dona Rosa não disse nada, apenas fechou os olhos, deixando-se levar pelos acordes de uma doce e suave melodia que lhe chegara aos ouvidos. Emocionada, Amélia Baiana começou a chorar, boca aberta, garganta vermelha de tanto gritar verdades.

Seu choro rasgaria a calma.

Sua voz negra e pungente atravessaria o vento, anunciando que o menino que acabara de nascer trazia uma mensagem do Universo e era o símbolo da união das raças, porque preto e branco são iguais.

No ar pairava um vago sentimento de benção.

No céu, um espetáculo de luz.

Um meteorito em forma de estrela descera sobre a Terra, indo cair bem em frente à casa do menino que nascera. A noite quente de surpresa e curiosidade logo arrastaria uma multidão ao local.

O prefeito, a mulata e o general.

Lá estavam todos. Alfaiates, marceneiros, macumbeiros, funcionários públicos, sapateiros, jornalistas, advogados, políticos, chacareiros, pedreiros, engraxates, doceiras, lavadeiras, malandros, comerciantes e costureiras – iam apressados, rumo à Praça da Bandeira, cobrindo com seus passos o calçamento das ruas e o desenho das calçadas.

O maestro Manoel estava feliz. Após esvaziar uma caneca de vinho, acendeu um charuto e chegou à janela. Queria contemplar a noite e agradecer ao céu, quando alguém lhe perguntou:

– Então, Maestro. Nasceu mais um Silva em sua casa?

– Silva, não. Nasceu outro Manoel, amigo. Manoel Jacintho Coelho.

Atento à conversa, um repórter magro, alto, cabelos negros, glotorados, murmurou baixinho:

– Silva ou Coelho que diferença faz. Na verdade, somos todos fulanos de tal, enganados pelos políticos, explorados pelos patrões e humilhados pelas esquinas.

Vestido comprido e rodado, com aplicações de viés e rendas, laço de fita no cabelo, a menina Leonor Nunes dos Santos acompanhara todo o espetáculo com interesse e deslumbramento.

Na inocência de seus nove aninhos, ela achava tudo muito bonito e iluminado, “um dia de festa, com aquela gente toda”.

Tempo distante, de lembranças e de saudades.

Naquele dia, muita coisa a menina Leonor ficou sem entender. Hoje, quase centenária, cabelos brancos servindo de moldura ao rosto bonito, ela vai repetindo para os netos o seu conto de príncipe.

Na voz cansada, o sublime, o belo, o terno e o saudoso:

– Naquela noite, uma estrela desceu do céu. Era uma estrela grande e azul. Veio descendo, descendo, descendo… e deixando, por onde passava, um brilhante rastro de luz. Os sinos tocaram e as pessoas saíram de suas casas, indo para a rua. Estavam emocionadas e felizes. Homens e mulheres, jovens e velhos, pobres e ricos, adultos e crianças se abraçavam. Era um novo tempo de amor, de confraternização, de amizade e respeito, um dia de festa. Afinal, um menino que viera de muito longe e acabara de nascer.

– Quem?… Indaga com interesse um dos netos e dona Leonor responde comovida:

– O Cavaleiro da Concórdia.

A negra Amélia Baiana tinha razão. Manoel viera ao mundo na cor de bronze unindo as raças. E ali estava para lutar pela Redenção do homem, pela liberdade definitiva, para devolvê-lo ao seu estado natural.

Suor negro a inundar a Terra, aquela mulher com seu enorme poder de percepção, entre o soluço e a lágrima, sentira o poder da energia que emanara daquele pequenino corpo, tanto que balbuciara:

– Com a chegada de Manué começa um novo tempo. Depois dele, não vai havê mais lugá pros miserávis donos da vida, porque todo mundo vai sabê de onde vem, pra onde vai.

O maestro Manoel não conseguira entender exatamente o que Amélia Baiana pretendia dizer, mas pressentira que o filho viera ao mundo predestinado a uma missão. E aquela mulher sabia de tudo. Era um testemunho vivo, palpitante da anunciação de um novo tempo.

Diante desta certeza, olhara para o céu e pedira ao Verdadeiro DEUS:

Pai, que o sacrifício de meu filho tenha uma finalidade.

Sobre nalub7

Uma pessoa cuja preocupação única é trabalhar em prol da verdadeira consciência humana, inclusive a própria, através do desenvolvimento do raciocínio, com base nas leis naturais que regem a natureza e que se encontram no contencioso da cultura natural da natureza, a CULTURA RACIONAL, dos Livros Universo em Desencanto.
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2 respostas para O VERDADEIRO, DESENCANTO EU SOU! Nº 02 – O NASCIMENTO DO MESTRE

  1. Mary Sana disse:

    Com o nascimento do MESTRE MANOEL JACINTHO COELHO, nasce também UM NOVO TEMPO, UMA NOVA CULTURA, UMA LUZ, ALENTO para a humanidade.
    Antecipadamente, parabéns a todos os povos do mundo que abraçarem esta oportunidade ímpar: nunca mais serem reféns da ignorância que promove o sofrimento em variados níveis.
    VIVA A FASE RACIONAL, QUE ORA BRILHA UNIVERSALMENTE!

    Curtido por 1 pessoa

    • nalub7 disse:

      É verdade, Mary!
      Toda a humanidade está de PARABÉNS pela oportunidade ÚNICA que lhe foi dada pelo RACIONAL SUPERIOR para que todos, indistintamente, retornem ao seu estado natural pelo desenvolvimento do raciocínio, ligando-se à ENERGIA RACIONAL através da leitura diária dos |Livros “Universo em Desencanto”!
      Gratíssimos!

      Curtido por 1 pessoa

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