O VERDADEIRO, DESENCANTO EU SOU! Nº 08 – O HOMEM DO OUTRO MUNDO

O HOMEM DO OUTRO MUNDO

(JORGE ELIAS, Jornalista, autor do Livro “O Cavaleiro da Concórdia”)

 

 

O Senhor Presidente da República, Dr. Getúlio Vargas olhou o relógio, acendeu o charuto, pegou o telefone e ligou para o Ministro Afrânio de Melo Franco, no Palácio do Itamaraty:

– Dr. Afrânio?

– Sim.

– Quem está falando é o Dr. Getúlio. Estou desejando saber do senhor Manoel Jacintho Coelho, aquele seu funcionário. Ele me pediu que resolvesse um problema dele, e vou atendê-lo. Trata-se de um emprego para um parente, um sujeito estudioso, competente, merecedor da oportunidade. Por favor, peça a ele que venha imediatamente ao Palácio do Catete, porque não disponho de muito tempo.

 -Vou mandá-lo sim. E de resto, Presidente?

– Vou bem, Dr. Afrânio. Estou recuperado e pronto para servir ao nosso País.

– Isto é ótimo, Dr. Getúlio, isto é ótimo…

– Vou desligar, Dr. Afrânio. Não deixe de mandar o Manoel aqui.

– Sim, Presidente…

Ele não conseguia, porém, esquecer de Manoel.

Quando soube dos resultados eleitorais da Constituinte, dia 3 de maio, voltou a vê-lo, sempre iluminado pela luz prateada:

– Esse Seu Manoel parece mesmo um homem do outro mundo. A ampla vitória dos representantes das situações estaduais havia lhe garantido a realização de mais um sonho: o de se tornar Presidente da República, eleito através do voto indireto, fato que iria ocorrer no dia 17 de julho do ano seguinte, um dia após a promulgação da Constituição.

Chapéu na cabeça e cigarro de palha na boca, Manoel parecia acompanhá-lo. Sentia vontade de revê-lo, agradecê-lo e abraçá-lo. E também ouvi-lo. Afinal, ele sabia das coisas.

Muito não demorou, Manoel chegava ao Palácio do Catete com seus quase dois metros de altura e mistério. Imediatamente foi arrastado para o gabinete do Presidente. Ali, Vargas o esperava ansioso, inquieto, caminhando de um lado para outro e fumando muito.

– Como vai o homem do outro mundo – exclamou sorridente ao vê-lo. Depois veio abraçá-lo, feliz e agradecido.

– Não sei como escapei daquele terrível acidente, Seu Manoel. Daquele acidente para o qual o senhor havia me alertado e pedido para que tivesse cuidado. Mas reconheço, poderia ter sido bem pior, bem mais trágico.

E recordou Getúlio:

– Quando ouvi o estrondo fechei os olhos. De olhos fechados vi o seu rosto. Tive a consciência, àquela altura, de que não me livraria do acidente, mas que iria sobreviver, porque o senhor estava do meu lado. Mandei chamá-lo para agradecê-lo e também presenteá-lo.

Caminhou até à mesa e abrindo a gaveta, dela retirou uma pequena caixa, embrulhada em papel colorido.

Disse:

– É um relógio, Seu Manoel. Um relógio de excelente marca, uma pequena lembrança. Ao usá-lo, o senhor vai se lembrar do seu amigo Presidente e também quanto lhe sou agradecido. Saiba, onde quer que eu esteja, não vou esquecê-lo. E espero que o senhor esteja sempre comigo.

Manoel sorriu, baixou a cabeça, estava emocionado. Depois começou a falar:

– Nesta vida nada é verdadeiro, a começar pela própria vida. Se a vida fosse verdadeira, ninguém iria perdê-la, Presidente. O que parece certo hoje, amanhã será errado, porque vivemos uma fase de desacertos, de desencontros. O homem é um vago bicho sem destino, nasceu sobre a Terra sem saber por que nem para quê.

– E como vamos saber o porquê, Seu Manoel?

– Daqui a dois anos, Presidente, com início da Fase Racional, a fase do raciocínio, quando a humanidade vai conhecer o mundo de sua raça e saber também como voltar para ele. A vida não terá mais segredos.

– O Presidente sabe o segredo da vida?

Um raio de sol fraco e louro iluminou o rosto redondo de Vargas. Surpreso e curioso, ele absorvia, em silêncio, as palavras sábias de Manoel:

– A vida tem suas organizações muito claras para quem sabe viver. Para quem não sabe, a vida torna-se desorganizada e difícil. Os seres orgânicos se digladiam, lutam, destruindo a própria vida. Para ser bem formada, bem construída, equilibrada ao bem-viver, a vida necessita que os seres orgânicos e as organizações estejam paralelas e adequadas ao modo de que se constitui a vida. O poder da vida está naquilo que as organizações podem corresponder para equivaler à vida.

– O que vale o vivente ter vida, viver e não saber viver, Presidente? Indaga Manoel, respondendo depois:

– Ora, não vale nada, porque quanto mais se procura organizar a vida, mais se desorganiza. E se desorganizando, mais sofrimento vai colhendo. É como a maré, sempre contra a maré, dentro do mar revolto. Assim como as tempestades que reinam na vida do vivente, acabam por naufragar-lhe a vida, deixando-o a imaginar e dizer:

– Quanto mais procuro o bem, mais ele se afasta de mim, mais longe fica, porque não enxergo o que vou fazer da vida.

E concluiu:

– Neste crepúsculo amargo, neste pesadelo infernal, neste vale de lágrimas, fica o vivente a pensar numa infinidade de coisas, sem saber resolver o ideal.

– Mas, Seu Manoel, o que seria o ideal no seu ponto de vista?

– Seria viver num mundo natural, verdadeiro, limpo, imenso, puro, longe dos problemas, das humilhações, das angústias e dos sofrimentos. Um mundo de união, de concórdia e de fraternidade. Um mundo sem mentiras, sem desconfiança, de equilíbrio e de virtudes.

E arrematou:

– No mundo de agora, a esperança que consola, aborrece e amola.

Vargas sorriu. Balançou a cabeça, concordando.

Manoel despediu-se dele, prometendo voltar um dia. Além dos ensinamentos de uma nova cultura, ele acabara de mostrar a Vargas, a luz da razão, o caminho da eternidade.

Agora sim, o Cavaleiro da Concórdia poderia partir para dar continuidade ao seu trabalho: o de fazer renascer das trevas o esplendor do Terceiro Milênio.

Sobre nalub7

Uma pessoa cuja preocupação única é trabalhar em prol da verdadeira consciência humana, inclusive a própria, através do desenvolvimento do raciocínio, com base nas leis naturais que regem a natureza e que se encontram no contencioso da cultura natural da natureza, a CULTURA RACIONAL, dos Livros Universo em Desencanto.
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2 respostas para O VERDADEIRO, DESENCANTO EU SOU! Nº 08 – O HOMEM DO OUTRO MUNDO

  1. Mary Sana disse:

    “Agora sim, o Cavaleiro da Concórdia poderia partir para dar continuidade ao seu trabalho: o de fazer renascer das trevas o esplendor do Terceiro Milênio”.

    Quando aqui em matéria esteve, O CAVALEIRO DA CONCÓRDIA, O MESTRE MANOEL JACINTHO COELHO, conviveu com todas as classes sociais e não poderia deixar de ser recebido pelo governante máximo da Nação Brasileira, o Presidente da República Federativa do Brasil, país sede da Racionalização dos povos.
    Todas essas passagens com pessoas diferentes em diversas situações, precisam ficar registradas para a posteridade, porque a GRANDE DIVULGAÇÃO MUNDIAL será realidade, quando definitivamente o MUNDO RACIONAL aqui se estabelecer, como o GOVERNO DO MUNDO.

    Curtido por 1 pessoa

    • nalub7 disse:

      E neste dia, Mary, em que o GOVERNO RACIONAL for o GOVERNO DO MUNDO, não haverá mais choros, nem sofrimentos, muito menos qualquer tipo de negatividade, porque todos e tudo se transmutarão para o bom, o belo, o generoso e equilibrado.
      Que MARAVILHA!
      Gratíssimos pelo comentário!

      Curtido por 1 pessoa

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